Prefiro minha parte em dinheiro…

18 jun

Esse post é para contar casos escabrosos de brasileiros que, como eu, passaram perrengues na hora de procurar emprego em Dublin. Fique esperto!

A essa altura você já sabe que mais de 80% dos brasileiros que vem morar em Dublin estão aqui para aprender inglês. Alguns chegam com quase nenhum conhecimento do idioma, outros com inglês avançado, mas todos com a mesma preocupação: conseguir um emprego e um salário suficiente para bancar as despesas.

Acontece que  algumas empresas, hotéis, restaurantes e agências de emprego estão usando a fragilidade de quem acabou de chegar, o desconhecimento sobre os direitos trabalhistas na Irlanda dos condidatos, a falta de domínio em inglês e, especialmente, a crise econômica, para criar critérios de seleção absurdos como testes nos quais o candidato tem que trabalhar por um dia, ou mais, de graça.

Com dezenas, talvez centenas de currículos em mãos, tiram proveito de quem está em situação desfavorável. O candidato, sem ver outra saída, se submete ao trabalho forçado na esperança de conseguir o emprego. Mas, o quê acontece? Ele não é contratado, e amanhã essa mesma empresa vai ligar para outro candidato para um “teste”.

Histórias que se repetem

 A história de Joyce Coelho é sintomática. Há meses tentando arrumar um emprego, ela se candidatou a uma vaga de kitchen porter/auxiliar de cozinha em um restaurante. Foi entrevistada e pediram para que ela voltasse para um “teste”. “Trabalhei por mais de cinco horas, lavei pilhas e pilhas de louça, cortei legumes, fiz panini, ajudei a cozinhar e fritar. Não foi um teste, foi um dia de trabalho e não falaram absolutamente nada de me pagar. Ficaram de me ligar na semana seguinte e até hoje não deram resposta”.

Para Joyce ficou claro de que ela foi usada. “Tenho certeza que fizeram isso com várias outras pessoas. A gente ouve muitos casos, quase todo mundo tem um para contar”.

Também em um restaurante, André Scofield  viveu algo semelhante. Para comprovar que tinha experiência em cozinha, André se ofereceu para trabalhar dois dias de graça. O problema é que dois dias viraram três e depois quatro. “Em um sábado comecei às 11 da manhã e fui até às 1:30 da madrugada. Praticamente 15 horas de trabalho gratuito são mais do que suficientes para saber se a pessoa tem habilidade para o cargo”.

Quando André quis saber quando os testes terminariam e ele começaria a receber um salário, ouviu: “André, seus amigos não te disseram que aqui em Dublin você tem que trabalhar uma semana de graça como teste para depois começar a receber? Estou achando você muito preocupado com dinheiro. Concentre-se no trabalho”. Foi a gota d’água para André largar o “emprego”.

Procurar uma oportunidade através de agências de recrutamento, muitas vezes não é a salvação. Diversas agências preferem recrutar imigrantes pois esta é uma mão-de-obra barata e fácil de ser ludibriada.

Minha amiga Prisicila Oliveira trabalha como cleaner em um hospital no centro de Dublin, mas foi contratada atráves de uma agência e até hoje enfrenta problemas. “Quase sempre tem alguma coisa errada, pagamento atrasado, desconto de taxas que não deveriam ser descontadas ou não entregam o payslip* ”, diz.

Segundo Priscila a falta de establidade ao se trabalhar com agência é outra coisa difícil de lidar. O funcionário só fica sabendo se vai trabalhar 30 minutos antes do turno começar. “Me mandam mensagem às 7:30 da manhã para entrar no hospital às oito. A sorte é que moro perto, mas se tenho algo planejado para o dia, tenho que adiar”.

Ela conta mais, “Se a agência vai com a tua cara, você tem trabalho, se não eles te deixam na geladeira. É a agência e não o hospital que decide quantas horas e quais dias da semana você trabalha. No ínicio, eles só me colocavam pra trabalhar no turno da madrugada”.

O abuso do poder vai mais longe. Enquanto um funcionário fixo do hospital, com a mesma função de Priscila, ganha 20 euros por hora, os agenciados recebem o salário mínimo e o restante fica para a agência, embora isso seja ilegal. Priscila ainda conta que “no pagamento do primeiro salário fui supreendida com o desconto do valor do uniforme que preciso usar no hospital. Mas o pior foi o dia que trabalhei 36 horas em um semana e a agência me pagou apenas dez.”

Aconteceu comigo também

Em maio passado, enviei meu currículo para um restaurante que ainda não havia sido inaugurado. Recebi mensangem no celular solicitando que eu me apresentasse para entrevista no dia seguinte. Na entrevista, mais de 20 pessoas esperavam a sua vez: chefes de cozinha, garçons e garçonetes, gerentes. O rapaz irlandês que fazia a entrevista falava por cerca de dois minutos com cada candidato e não dava nenhuma informação sobre o restaurante, o salário, as horas de trabalho, a vaga em si.

Naquela mesma noite recebi outra mensagem dizendo: “Obrigada por comparecer à entrevista. Gostaríamos que você viesse ao restaurante amanhã às 12 horas para uma triagem. O local precisará ser limpo para a inauguração. Não vista sua melhor roupa! Devemos terminar por volta das 18h30.” Fiquei em dúvida se eu havia sido contratada ou se a tal triagem ainda iria selecionar os candidatos mais apropriados. Fui até a triagem já esperando o pior.

Mensagens recebidas após a primeira entrevista no restaurante em Dublin.

Novamente cerca de 20 candidatos dispostos a limpar, varrer e lavar. Para os donos do restaurante, estava subentendido que aquelas pessoas aceitariam qualquer oferta e fariam qualquer coisa para conseguir o emprego.

Quando abri minha boca para fazer perguntas que ninguém tinha coragem, e quis saber se alguém seria dispensado, recebi um olhar de reprovação e uma resposta extremamente vaga em retorno: “alguns vão trabalhar full-time, outros part-time”.

Presenciei um grupo de rapazes em dificuldades para montar um armário e o recrutador comentar: “mais rápido, até uma criança de três anos consegue montar isso!” 

A falta de respeito com que estavam nós tratando me fez decidir que eu não iria limpar um restaurante de graça e ainda correr o risco de não ser contratada. Para mim essa não era uma boa maneira de se construir uma equipe. Fui embora sem saber se o pequeno restaurante havia demanda para mais de 20 funcionários e triste em ver que as pessoas acham uma situação como essa normal. Ouvi de um rapaz brasileiro que estava lá:  “Acho que é assim que funciona. Estou precisando trabalhar, cara”.

Dias depois entrei em contato com um dos candidatos brasileiros que estava na tal “triagem” junto comigo para saber como a história terminou. Ele me contou o seguinte: “Também achei estranho chamarem toda aquela galera pra limpar e arrumar o lugar sem explicar nada. No fim eles pagaram uma pint pra cada um de nós, acredita? E depois disseram que todos nós seriamos contratados em shifts* de 4 horas no início mas que poderia aumentar a partir do segundo mês. Estou esperando uma mensagem deles dizendo quando vou trabalhar até hoje. 

O que descobri depois foi ainda mais nauseante. O restaurante está em funcionamento há algumas semanas e no roster* todos são irlandeses! 

Eu podia ligar para os donos do restaurante e avisá-los que estou publicando essa história no blog, para ver o que eles falam ou se se defendem, mas acho que ia ajudar muito pouco a comunidade brasileira.

Ao invés disso resolvi colocar aqui a foto, o endereço e o nome do restaurante. Se você tem espírito de comunidade e se importa com seus compatriotas, NÃO frequente esse lugar, por favor. É o mínimo que podemos fazer.

Rigby’s Deli

65 Dame Street, Dublin 1

e mais um endereço: 126 Upper Leeson Street, Dublin 4

Pra entender

Pay slip: O payslip é o holerite, aquele pedaço de papel que mostra quantas horas o funcionário trabalhou, qual o salário a receber e o montante descontado em impostos e contribuições. Exija o payslip do seu empregador!

Shift: shifts são períodos ou turnos de  trabalho.

Roster: é a lista de nomes das pessoas escaladas para o trabalho, que diz os dias e horários que elas irão trabalhar.  Normalmente fica no staff room ou próxima ao relógio de ponto. 

2 Respostas to “Prefiro minha parte em dinheiro…”

  1. Heloiza Nery julho 17, 2012 às 2:54 pm #

    Isso aconteceu comigo no bar The Mercantile Hotel, Bar & Grill em DUBLIN,
    TRABALHEI POR 6 horas e nunca fui paga ate hoje os BASTARDS me devem dinheiro.
    Nunca entre em nenhum restaurante ou pub para trabalhar antes de assinar um contrato.
    Mas venho ressaltar que a empresa Mc Donalds na Irlanda eh uma das mais corretas que nunca deixou de me pagar e podem mandar cv por mcdonalds.ie
    Abs a todos, e boa sorte.

  2. Alan agosto 12, 2013 às 9:07 am #

    muito bacana essa postagem, vale pra nos lembrar que europa nao é um mar de rosas, que gente de má fé existe em todo lugar

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